Início Sistema Ocepar Comunicação Informe Paraná Cooperativo Últimas Notícias OPINIÃO: Colono, agricultor, discriminado e vencedor

 

 

cabecalho informe

OPINIÃO: Colono, agricultor, discriminado e vencedor

 

opiniao 05 08 2019*Eugenio Stefanelo 

Os periódicos europeus e norte-americanos apontam o Brasil como devastador do meio ambiente, das florestas tropicais da Amazônia, do cerrado e outras, aniquilador dos territórios e populações indígenas e das reservas naturais e o grande vilão da desestabilização do clima no mundo. Inclusive que o acordo Mercosul e UE reflete os valores pró indústria do passado e não as preocupações ambientais do futuro.

 

Sabemos que o nacionalismo, o protecionismo, as inovações sócio ambientais e os avanços tecnológicos estão redesenhando o princípio das vantagens comparativas e competitivas dos países e provocando profundas mudanças nos empregos das pessoas. Também que as inovações ambientais estão mudando o jeito de se fazer negócios e são a única forma de ação coerente com a política de desenvolvimento sustentável.

 

Mas ninguém desconhece que o desenvolvimento e a cooperação internacional andam de mãos dadas com as políticas do poder dominador e a imposição dos padrões dos detentores aos demais, não importando os métodos usados, inclusive a omissão da verdade e a intervenção direta na soberania nacional.

 

Um exemplo é a tentativa de barrar a notável competitividade do agronegócio brasileiro via imposição do padrão ambiental norte americano e europeu de manter a produção agropecuária lá e a preservação das florestas aqui, claramente explicitado pelos produtores norte-americanos e disfarçadamente pelos europeus.

 

O código florestal brasileiro estabeleceu áreas de preservação permanente e de reserva legal que somam 218,2 milhões de hectares, 50% em média da área dos estabelecimentos rurais (variando de 20% no Sul a 80% na Amazônia) e 25,6% do total da área do país, segundo dados da Embrapa Territorial. Caso vigorasse na Europa e nos EUA, praticamente a totalidade dos estabelecimentos rurais estariam descumprindo a lei.

 

As unidades de conservação integral e terras indígenas somam 88,4 e 117,3 milhões de hectares ou 10,4% e 13,8% do território brasileiro. A vegetação nativa em terras devoluta e não cadastradas equivale a mais 16,5% ou 139,7 milhões de hectares.

 

O total das áreas destinadas a vegetação protegida e preservada soma 66,3% do território brasileiro ou 631,8 milhões de hectares. Qual dos países desenvolvidos destina esta percentagem da terra a preservação ambiental?

 

Segundo a Embrapa Territorial, a agricultura brasileira (lavouras) usa 66,3 milhões de hectares ou 7,8% do território. As florestas e pastagens plantadas mais 122,4 milhões de hectares ou 14,4%. A maioria dos demais países do mundo utiliza entre 20% e 30% do território com agricultura (lavouras). Os da União Europeia usam entre 45% e 65%; os Estados Unidos 18,3%; a China 17,7%; e a Índia 60,5%.

 

Os produtores brasileiros preservam e não abrem mão desta responsabilidade para com o meio ambiente nacional e mundial, mas não aceitam terem a imagem denegrida por quem não faz e não pratica da mesma forma: florestas e produção sustentável aqui e lá. Esse é o verdadeiro lema.

 

Em outra área, a dos defensivos agropecuários, o Brasil usa 4,31 kg por hectare cultivado e ocupa a 44ª posição no ranking das Nações Unidas. Americanos, japoneses e europeus usam mais, mas a maioria das publicações divulga o total usado por país, mascarando as estatísticas. E a recente atualização da classificação toxicológica adotada pela ANVISA, mais coerente com os critérios adotados pelos países desenvolvidos, mostrou que a nossa era significativamente mais restritiva.

 

É claro que, se mal-usados, os defensivos apresentam efeitos colaterais significativos ao meio ambiente e as pessoas, exatamente como os medicamentos prescritos pelos médicos, cujas receitas são apreciadas e seguidas pela maioria da população. No entanto, esta mesma população consumidora não considera da mesma forma e inclusive discrimina as receitas prescritas pelos responsáveis pela sanidade da terra, das plantas e dos animais.

 

O manejo integrado de pragas e doenças, o plantio direto na palha, e a integração lavoura, pecuária e florestas, a preservação ambiental e a produção sustentável, mas pouco valorizadas pelos meios de comunicação externos e inclusive internos.

 

A recente polemica envolvendo a divulgação pelo INPE de dados sobre o desmatamento da Amazônia também demonstra como a apresentação de um fato pode mascarar a realidade ou atender a objetivos diferentes. O correto seria o INPE divulgar o índice de preservação, mostrando o mínimo exigível pela lei de 80% e o quanto preservamos acima disto. E também o índice de desmatamento, subdividido em legal e ilegal. Nesse caso, o desmatamento ilegal, que deve ser denunciado e combatido, não renderia as manchetes e nem seria apreciado pelas instituições estrangeiras que financiam entidades no Brasil para atuarem contra o agronegócio.

 

O temor da competitividade dos produtores brasileiros pelos países protecionistas tem explicação: a produtividade total dos fatores entre 1975 e 2017, segundo dados do Mapa, cresceu em média 3,08% ao ano no Brasil e 1,84% ao ano na média de 183 países do mundo. E nos 36 países da OCDE, 20% da receita dos produtores vem de subsídios do governo, enquanto que no Brasil não passa de 3%.

 

A você colono ou agricultor verde e amarelo que luta de sol a sol, é mal compreendido e combatido por muitos, usa metade do patrimônio territorial para a preservação ambiental, produz riquezas e gera empregos, abastece a nós urbanos e parte da população mundial, o nosso respeito e admiração. Você é um vencedor.

 

*Eugenio Stefaleno é professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), doutor em economia agrícola e apresentador do programa Negócios da Terra, da Rede Massa

Submit to FacebookSubmit to Google PlusSubmit to LinkedIn

Últimas Notícias