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ECONOMIA: Economistas criam ferramentas para medir PIB em tempo real

 

economia 13 09 2018Do Banco Central à Fundação Getulio Vargas (FGV), os economistas brasileiros estão numa corrida para desenvolver ferramentas que permitam medir o Produto Interno Bruto (PIB) praticamente em tempo real. Essa é a nova fronteira dos estudos acadêmicos — cada vez mais aplicados na prática — em debate na principal conferência mundial de estudo sobre ciclos econômicos, conhecida pela sigla Ciret, que neste ano é sediada pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV.

 

Nova tecnologia - Na palestra de abertura, o economista italiano Domenico Giannone, do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de Nova York, apresentou uma nova tecnologia de estimativa do PIB em tempo real, chamada de “nowcasting”, o que inglês significa algo como “projetar o agora”.

 

Projeção - Na última sexta-feira (07/09), o Fed de Nova York previa um crescimento de 2,23% do PIB americano no terceiro trimestre, período que só termina com o fim deste mês. Uma semana antes, sua estimativa era uma expansão de 1,98%. Hoje, provavelmente projeta outro número. As estimativas são revistas minutos depois de saírem estatísticas mais frescas, embora sejam divulgadas ao público apenas semanalmente.

 

Brasil - O Banco Central do Brasil também tem o seu projeto de “nowcasting” e já gera estimativas de PIB para o consumo interno da instituição, mas o modelo ainda não está maduro o suficiente para ser divulgado ao público, como faz o Fed de Nova York.

 

Estudos - Na conferência Ciret, estão sendo apresentados dois estudos de pesquisadores da FGV sobre modelos que fazem o “nowcasting”. O Ibre/FGV, que na última década ganhou protagonismo na condução de pesquisas de expectativas, também tem investido na área. “As possibilidades são muitas”, afirma o vice-presidente do Ibre/FGV, Vagner Ardeo. “Imagine quanta informação sobre a atividade econômica existe, por exemplo, nas notas fiscais eletrônicas.”

 

Vantagens - “O PIB tem as suas vantagens, é uma série consagrada e de fácil entendimento para o público”, disse Giannone, na sua palestra. “O problema é que é divulgado com uma defasagem muito grande, por isso não é muito útil para análises econômicas em tempo real.”

 

Bancos centrais - Os bancos centrais, tipicamente, são ávidos por saber qual é o estágio da atividade econômica no presente momento. Há uma relação entre grau de aquecimento da economia e inflação, que é a meta dos bancos centrais. Quando a economia caminha muito rápido, a capacidade produtiva da economia pode se esgotar rapidamente, gerando pressões inflacionárias.

 

Defasagem - No caso do Brasil, o PIB é divulgado com cerca de dois meses de defasagem, prazo que está mais ou menos dentro do padrão internacional. Desta forma, o PIB do terceiro trimestre só será conhecido em fins de novembro. Até lá, porém, a economia já estará avançada no quarto trimestre, e o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC terá feito duas reuniões para decidir a taxa básica de juros. Se dependesse apenas do PIB, ficaria às escuras.

 

IBCBr - O BC brasileiro já divulga um indicador de atividade mais célere, o chamado Índice de Atividade do Banco Central (IBCBr). Mesmo assim, é lento demais para atender à voracidade por informações mais tempestivas: o IBC-Br mais recente, de junho, foi divulgado em 15 de agosto.

 

Diferença - A diferença entre o IBC-Br e o “nowcasting” é que, no caso do primeiro, são usados dados contábeis, como ocorre no PIB.

 

Matéria-prima - Ou seja, sua matéria-prima são indicadores que medem ou estimam quantidades efetivamente produzidas. Já o “nowcasting” é uma ferramenta estatística que usa muito de dados como expectativas de consumidores, empresas e de setores da economia.

 

Homem x máquina - Durante o seminário, Giannone foi questionado se a miríade de dados disponíveis no mundo da internet, que vão de estatísticas de compras de passagens ou de uso de meios de pagamento a frequência com que alguns dados são pesquisados no Google, já está sendo incorporada no modelo de “nowcasting” do Fed de Nova York.

 

Máquina - Entre alguns economistas, há o sonho de criar uma máquina que busca automaticamente dados disponíveis em todas as fontes disponíveis e seleciona os melhores para prever a atividade econômica.

 

Realidade - “A realidade é que esses dados, por enquanto, não mostraram uma boa qualidade para projetar o que está acontecendo com a atividade”, disse Giannone. “Os melhores dados são aqueles já consagrados, que são acompanhados diariamente pelo mercado financeiro.”

 

Julgamento humano - Os modelos de “nowcasting” também não são capazes, até agora, de suplantar o julgamento humano sobre a temperatura da atividade econômica. Os níveis de erro das projeções feitas pelo modelo do Fed de Nova York é semelhante à média das projeções feitas pelos analistas econômicos, com uso de modelos e também a avaliação mais subjetiva de cada um. “Não recomendaria substituir o julgamento dos economistas pelo modelo”, disse Giannone, que diz que o ideal é usar o “nowcasting” sem abrir mão do raciocínio humano. (Valor Econômico)

 

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