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INTERNACIONAL: BCE corta juro em nova tentativa de estimular economia

 

internacional 13 09 2019Perto do fim de sua longa jornada de oito anos na presidência do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi buscou fazer justiça ao apelido de “Super Mario” que recebeu do mercado financeiro por enfrentar os riscos para a economia da zona do euro. Antes de passar o comando do BCE a Christine Lagarde, Draghi anunciou um amplo pacote de estímulos, incluindo novos cortes de juros e - o que mais agradou os investidores - um programa de compra de ativos sem prazo determinado para terminar.

 

Mercado - A partir de novembro, a autoridade monetária entrará no mercado, a cada mês, com a compra de € 20 bilhões em ativos financeiros, numa nova edição do relaxamento quantitativo (“QE”, na sigla em inglês) que foi apresentado, inicialmente, na esteira da crise global de 2008.

 

Duração - De acordo com o BCE, o programa durará “quanto tempo for necessário” para reforçar o efeito da queda de juros e só deve terminar pouco antes de as taxas voltarem a subir - na avaliação de analistas, essa é uma perspectiva de longo prazo e é bem possível que a iniciativa precise até ser intensificada em algum momento.

 

Ferramentas - Dentre as ferramentas a seu alcance, o BCE também decidiu colocar a taxa de depósito num território ainda mais negativo. A principal referência de juros na zona do euro caiu de -0,4% para -0,5%, num movimento que foi acompanhado por um sinal claro sobre os próximos passos. A taxa permanecerá em “níveis atuais ou inferiores” até que a expectativa de inflação convirja para a meta, de algo “próximo, mas abaixo de 2%”, segundo o BCE. Em agosto, a inflação ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) da região marcou alta de apenas 1,0% no acumulado em 12 meses, quase metade da meta do BCE.

 

Pacote - “O pacote de estímulos deve ser bem-sucedido em ancorar os mercados”, disse Nicola Mai, gestor de carteiras e analista de crédito soberano da Pimco, ao Valor. No entanto, ainda há grande incerteza sobre o impacto das medidas para a atividade econômica na zona do euro. “Eu sou um pouco mais cético se isso será suficiente para sustentar a atividade e a inflação.”

 

Expectativas - As medidas de Draghi atenderam boa parte das expectativas dos participantes do mercado. Numa reação inicial, os investidores venderam euros, compraram títulos dos países da região e reforçaram as carteiras com ações - tudo isso sob a leitura de que a liquidez vai aumentar com a aquisição de ativos pelo BCE. No entanto, este é um momento de preocupações crescentes com o risco de recessão na zona do euro - no segundo trimestre, a economia da região desacelerou o crescimento pela metade, a 0,2% - e, gradualmente, o clima de incerteza se traduziu em ceticismo sobre o efeito das medidas na atividade e na inflação.

 

Desaceleração acentuada - Caso uma desaceleração mais acentuada do crescimento econômico ocorra na região, entretanto, a política monetária sozinha não deve ter ferramentas suficientes para reverter o quadro. Neste cenário, haveria a necessidade de uma coordenação maior com as políticas fiscais para alavancar o crescimento no continente. “O problema é que os países que tem espaço fiscal não estão muito dispostos a recorrer a isso, e os países que estão dispostos não tem muito espaço fiscal porque já tem muita dívida”, afirma Mai.

 

Crítica - Na coletiva após a reunião do BCE, Draghi criticou a relutância dos governos europeus em ampliar os estímulos econômicos e afirmou que os esforços para provocar uma melhora da demanda e crescimento mais forte precisam começar a ser apoiados por eles. “A política fiscal deveria virar um instrumento principal”, afirmou o dirigente. “É hora de a política fiscal assumir a responsabilidade” para sustentar o crescimento.

 

Bolsas - Após a empolgação inicial, as bolsas europeias se afastaram das máximas do dia e chegaram a zerar os ganhos. O ânimo só foi retomado com a especulação de que EUA e China poderiam firmar uma trégua na disputa comercial, que se arrasta há meses. O principal índice da bolsa de Frankfurt, o DAX, teve alta de 0,41%, enquanto o CAC, de Paris, avançou 0,44%. Em Wall Street, o índice S&P 500 avançou 0,29%, aos 3.009 pontos.

 

Questão-chave - “A questão-chave agora é ver se a política monetária será suficiente”, afirma a estrategista-chefe de renda fixa nos EUA do Société Générale, Subadra Rajappa. Pesquisas do próprio BCE mostram que a maior parte do efeito positivo das ações da instituição sobre as expectativas de inflação e crescimento se deve à compra de ativos. O problema, diz Subadra, é que “todos sabemos que, quanto mais QE é implementado, menor o ganho marginal das medidas”.

 

Agressivo - No geral, porém, a estrategista avalia que este “foi um pacote bem agressivo”. “E não acho que os mercados estavam totalmente preparados para uma mensagem tão ‘dovish’ [favorável a afrouxamento monetário] por parte de Draghi”.

 

Reação mais intensa - Foi justamente na renda fixa que veio a reação mais intensa à decisão do BCE. Uma onda de compras dos títulos soberanos europeus derrubou os rendimentos dos papéis italianos de dez anos momentaneamente a uma nova mínima histórica, de 0,758%. Os bunds alemães para o mesmo vencimento chegaram a tocar os -0,647% na mínima intradiária. Após o choque inicial - e nova amenização das tensões entre Estados Unidos e China - ambos os títulos passaram a subir, com o papel alemão fechando em alta, a -0,517%, de -0,538%, e o italiano avançando a 0,903%, de 0,844%.

 

Eficiência - Toda essa instabilidade ocorre num momento de intenso debate sobre a eficiência do uso de taxas negativas para estimular a economia. Executivos de grandes bancos europeus têm reclamado que o ambiente de juros negativos afeta o balanço das instituições, o que poderia ter efeito contracionista no crédito.

 

Sistema de depósitos - De olho nisso, o BCE decidiu nesta quinta-feira (12/09) criar um sistema de depósitos em camadas, em que apenas uma parte dos depósitos compulsórios esteja sujeita a taxas negativas. E isso deve trazer alívio ao sistema bancário europeu e pode abrir espaço para novos cortes de juros na zona do euro, avalia a chefe de pesquisa macroeconômica da BlackRock Investment Institute, Elga Bartsch. 

 

Espaço - “Há um limite para colocar os juros em patamares ainda mais negativos, mas estudos acadêmicos apontam que as taxas poderiam cair para níveis de cerca de -1%. Então, ainda há espaço para novos cortes”, diz a especialista. (Valor Econômico

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