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OPINIÃO: Governança e gestão das empresas do agronegócio

opiniao 11 02 2020*Adriano Machado e Fabio Pereira

O Brasil é notadamente um dos mais importantes players globais do agronegócio. Dessa forma, os empresários do setor estão expostos a um mercado cada vez mais competitivo e inovador. Impulsionadas por esse ambiente de negócios e pela necessidade de diminuir riscos e aumentar sua rentabilidade, as empresas do agronegócio brasileiro necessitam cada vez mais aprimorar e profissionalizar sua gestão, solidificando suas estruturas e criando estratégias para o amadurecimento das relações internas.

Constata-se hoje que a maior parte dos produtores rurais no Brasil são empresários capitalizados, altamente especializados, que investem em conhecimento, tecnologia e serviços, atentos às dinâmicas do setor. Inseridas nesse contexto, também estão as empresas familiares, responsáveis por grande parte da produção agrícola e pecuária do país.

No entanto, somente a excelência produtiva no campo muitas vezes não é suficiente para as empresas do agronegócio prosperarem no setor, são diversos desafios.

A volatilidade da taxa de câmbio, que iniciou 2019 próximo de R$ 3,80 e chegou a atingir R$ 4,25 no final de novembro, por exemplo, apesar de favorecer as exportações do setor, também encarece insumos básicos da produção agropecuária, como fertilizantes e defensivos, impactando os custos de produção.

Outro fator que as empresas não conseguem controlar são os preços das commodities agrícolas. Em 2019, os preços do café atingiram o menor valor em 10 anos, na bolsa de Nova York, e não estavam cobrindo os custos de produção em Minas Gerais, estado responsável por mais da metade da produção brasileira. Situação parecida aconteceu na safra 2018/19, com a cultura do arroz, no Rio Grande do Sul, na qual a rentabilidade foi negativa para parte dos produtores, fazendo com que alguns se afastassem da atividade.

Para conseguirem sobreviver a esse cenário bastante desafiador e ganhar competitividade, adotar os princípios de governança torna-se primordial para as empresas, uma vez que estes oferecem condições para a atuação dos gestores e protege os interesses dos investidores. Segundo o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), a governança é um conjunto de boas práticas de gestão, que convertem princípios em recomendações objetivas à empresa, a fim de preservar e otimizar o valor da organização, facilitar seu acesso ao capital e contribuir para a sua perenidade.

Este conceito pode ser aplicado em diferentes tipos de empresas. No âmbito das empresas familiares, a governança é expandida a fim de abordar questões que possibilitem à família desenvolver sua atividade empresarial baseada em valores e princípios, atenuando assim, possíveis conflitos familiares. Já no ambiente das cooperativas, a adoção de práticas de governança deve garantir e assegurar uma gestão sustentável, em sintonia aos interesses dos cooperados.

O estabelecimento de diretrizes de governança traz inúmeros benefícios, como a criação de controles e rotinas administrativas, maior eficácia nas tomadas de decisão, atração e retenção de profissionais qualificados e melhores condições para obtenção de recursos financeiros. Além disso, no caso das empresas familiares, estabelece os critérios para a relação profissional entre parentes e atua na preparação para a sucessão patrimonial. Essas medidas influenciam diretamente o sucesso das empresas e a possibilidade de expansão do negócio.

Nos últimos anos, fatores como o forte crescimento do setor agropecuário brasileiro, com aumento da complexidade e da competição nas diferentes cadeias de valor, além do amadurecimento do empresariado, incentivaram o crescimento da adoção de estratégias de controle e governança nas empresas do agro brasileiro.

A pesquisa Governança em Empresas Familiares: Evidências Brasileiras, conduzida pela PwC em parceria com o IBGC, deixa isso bem evidente. De acordo com o estudo, somente 10% das empresas entrevistadas afirmaram nunca ter discutido a adoção de práticas de governança. Já para 67,4% das empresas, a necessidade de aprimoramento do modelo de gestão foi o principal motivo que as levou a discutir questões de governança. Além disso, 73,1% das empresas têm pelo menos uma estrutura de governança familiar, sendo que a reunião ou assembleia familiar é a mais comum.

A pesquisa mostra ainda que algumas práticas de governança estão mais consolidadas, como a adoção de mecanismos formais para separar o patrimônio entre família e empresa e a criação de órgãos de fiscalização e controle. Contudo, questões como processo sucessório e a avaliação do conselho de administração (quando existente) ainda carecem de medidas.

O agronegócio brasileiro passa por transformações que exigem do empresário rural capacidade de adaptação para se encaixar à nova realidade. O investimento em governança permite às empresas se fortalecerem, por meio da construção de um planejamento estratégico apurado e de uma estrutura organizacional adequada para atrair investimentos. Somente essa profissionalização, pautada pela governança, irá permitir que as empresas rurais cresçam e possam planejar novos investimentos para seguir prosperando pelas próximas gerações.

*Adriano Machado é sócio da PwC Brasil e Fabio Pereira é gerente sênior da PwC Brasil e especialista em Agribusiness

 

Foto: Pixabay

 

 

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