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INOVAÇÃO II: Palestras abordaram habilidades e transformação digital no cooperativismo; houve ainda apresentação de cases

A primeira palestra do Fórum de Inovação do Cooperativismo Paranaense foi apresentada, na tarde desta segunda-feira (28/09), por Wendel Afonso, convidado a abordar o tema “As skills de inovação”. CEO da Harmony Baby Nutrition, uma startup baseada em biotecnologia de ponta, ele possui experiência em gerenciamento de empresas de base científica, produtos de consumo, estratégia de negócios e propriedade intelectual. Tem MBA pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (Massachusetts Institute of Technology - MIT, na sigla em inglês), é mestre em Ciências e Tecnologias de Alimentos pela Universidade Federal de Minas Gerais e bacharel em Farmácia.

Atuação - Wendel contou que começou a atuar na área de inovação meio que por acaso, após uma frustração quando estudava Farmácia e Bioquímica. Resolveu fazer outros cursos, um deles sobre Empresas Iniciantes de Base Tecnológica, que proporcionou uma experiência bem-sucedida, com a criação de uma empresa que produzia fórmulas infantis para bebês, juntamente com um professor. “Foi um grande sucesso, chegou a ser capa de revista em 2015. Mas, dois anos depois, ela quebrou. Foi um choque”, relatou. Após virar empreendedor e trabalhar com inovação, foi atrás do sonho de conhecer uma instituição que pudesse contribuir mais com o seu aprimoramento e estudou no MIT, nos Estados Unidos. “Certamente é a mais prestigiada e a mais reconhecida do mundo inteiro como geradora de inovação e tecnologia. Mais de 90 ganhadores do Prêmio Nobel são ex-alunos, membros do corpo docente ou pesquisadores do MIT”, afirmou Wendel.

Ecossistema de inovação - Um dos pontos que ele abordou em sua palestra foi sobre o ecossistema de inovação, a partir da observação de cientistas do MIT sobre o fato de haver no mundo lugares que geram mais inovação que outros. Os Estados Unidos, por exemplo, detêm três milhões de patentes, muito mais do que qualquer outro país. De acordo com a professora Fiona Murray e sua equipe no MIT, são cinco os elementos para se obter de fato um ecossistema de inovação. “O mais importante é o empreendedor, pois é ele quem empurra a cadeia, faz gerar o ciclo. Mas, sozinho, não é suficiente. Você também precisa de dinheiro, capital de risco, governo, universidades e a corporação, e eu quero falar especialmente sobre isso”, afirmou. Mas antes de chegar a esse ponto, o palestrante comentou outras questões relativas ao tema.

Disrupção - Para falar sobre como funciona a inovação no mundo corporativo, primeiro Wendel fez um paralelo, lembrando do conceito de disrupção, criado pelo professor de Harvard, Clayton Christensen. “Ele publicou um livro, 1997, chamado o dilema da inovação. Esse livro é muito interessante e onde, pela primeira vez se explicou porque as grandes empresas sofriam disrupção por causa da inovação. Elas eram pegas de calca curtas. O mercado mudava e elas não regiam em tempo. Segundo o professor Clayton, a inovação disruptiva, seja ela de um produto ou serviço, não tem a maior atratividade para os maiores líderes dessa indústria. É quase que um puxão de orelha que ele dá nos grandes líderes”, disse.

Bombardier - Depois, Wendel lembrou da experiência que teve em uma aula ministrada no MIT, por Simon Johnson, que foi o presidente do FMI em 2008, e apresentou o caso envolvendo Brasil e Canadá, e as empresas aéreas Bombardier versus Embraer. “Na hora de apresentar esse case, o professor contou como o Brasil foi excelente em se organizar em termos de sistema de inovação. Ele mostrou como as universidades, como a UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), trabalharam gerando conhecimento para a Embraer e como o governo apoiou a iniciativa. Depois, o professor olhou para todos os alunos, perguntou se havia brasileiros na turma e disse: ‘Obrigado, Brasil. Obrigado pelo que vocês fizeram tem termos de aviação mundial. Eu adoro andar nos jatos de vocês. É impressionante como vocês derrubaram os preços das passagens aéreas. Isso impactou de forma muito positiva a economia mundial. Muito obrigado pelo que vocês fizeram. Para nós, o Brasil é o país do futuro, do futuro, do futuro. Por quê?’, questionou, se dirigindo aos alunos brasileiros”, contou o palestrante.

Contraste - Ainda de acordo com ele, o professor Simon também mostrou um gráfico indicando que, em 2012, 90% dos brasileiros demonstraram desejo de empreender, muito mais do que na China e nos Estados Unidos. “Porém, na contramão disso, trouxe outro quadro feito pelo Banco Mundial, com um ranking de 190 países. Os países que estão no topo são mais propícios a criar negócios, como Nova Zelândia, Singapura e Hong Kong. E os últimos da fila, são os mais difíceis de criar negócios. O Brasil está na posição 124. Olha o contraste que temos nas mãos. Apesar de ter um grande desejo de criar tecnologia e inovação, nós estamos lá no final da cadeia quando a gente pensa nesses rankings de quanto é difícil fazer negócio no Brasil.”

Questionamento - Wendel, então, perguntou aos participantes do Fórum de Inovação: “Se você estivesse na sala de aula comigo, no MIT, como você responderia à pergunta do professor Simon? Por que o Brasil é o país do futuro, do futuro, do futuro? Se o nosso país é capaz de ter um case como o da Bombardier, por que as coisas não estão acontecendo? E mais, tragam suas respostas para o ambiente atual de inovação que temos. Tragam essas respostas para dentro das suas corporações. Lembra que a gente disse que um pouco de impacto que você provoca numa grande corporação, como a maioria de vocês terão essa responsabilidade, gera um efeito muito grande?”, provocou.

Papel do agente - O palestrante finalizou destacando o papel dos agentes de inovação. “O que não falta em nosso povo são mentes brilhantes, pessoas capacitadas. Falta às vezes esse mindset propício a entender as mudanças, acompanhá-las e fazer as coisas de forma excelente. O desafio de vocês como agentes de inovação é enorme. Eu preciso ser muito claro. Não vai ser simples. Mas é muito importante, é recompensador que nós possamos agir e ter um papel fundamental para transformar, não só aquela indústria, aquela corporação, aquela cooperativa que estamos envolvidos, mas atuar como agentes de transformação de um país inteiro”, concluiu Wendel.

Transformação digital - Na sequência, Andrea Iori, apresentou a palestra sobre transformação digital no cooperativismo. Com dez anos de experiência em multinacionais e em tecnologia, ele foi chefe da divisão de produtos profissionais da Loreal e lançou o Tinder Brasil. É investidor anjo de diversas startups de aplicativos, autor do livro “Seis competências da transformação digital”, além de ser fundador da ONG Apps do Bem. Italiano, Andrea mora há nove anos no Brasil. Ele iniciou falando sobre como surgiu a câmera fotográfica Polaroid, em 1944, com a pergunta de uma criança de quatro anos ao pai. “Na época, você tinha que revelar as fotos e ela perguntou: posso ver a foto que você acabou de tirar? E o pai disse obviamente que não. Não havia nenhuma tecnologia para isso. Porém, ele ficou incomodado, desenvolveu e criou a Polaroid, uma empresa que prospera até hoje. Esse é Edwin Land”, disse o palestrante.

Pontos de vistas diferentes - “O grande ponto dessa questão é porque eu começo a discussão sobre a transformação digital tratando desse tema. É porque nenhum adulto teria feito uma pergunta como essa. A inovação nasce a partir do nosso poder de ter pontos de vistas diferentes e, muitas vezes, desafiar crenças que a gente acha que de fato são fixas. Muitas vezes os padrões do passado, em vez de serem soluções, são travas, e a gente não consegue olhar o momento atual sob uma perspectiva diferente”, acrescentou.

Cooperativismo - O palestrante depois citou o cooperativismo. “Em 2019, quem imaginaria que o setor de saúde seria transformado pela telemedicina. As Unimeds se adaptaram com grande velocidade, inclusive. Quem teria acreditado que Brasil seria um dos primeiros a serem aceitos pelo Whatsapp para realizar pagamentos via aplicativo, inclusive incluindo uma cooperativa de crédito como agente financeiro? Quem teria imaginado muitas das coisas que aconteceram a partir de março de 2020? Com certeza, poucos. Um adulto, em 1944, nunca teria perguntado se poderia ver a foto que você acabou de tirar porque já sabia da resposta. E nós temos um monte de respostas para muita coisa. O grande ponto é que temos que resgatar a nossa força de fazer perguntas.”

Características - Andrea destacou na sequência, as dinâmicas do mundo digital. “Para mim, o mundo digital tem cinco grandes características que o fazem diferente em relação ao mundo do passado. Primeiro, ele é um mundo conectado e com efeitos de rede. Não é mais aquele mundo linear, analógico, previsível. É um mundo de correlações ocultas, onde algo que não faz parte do nosso negócio, porém faz parte do dia a dia do cliente, afeta e transforma as nossas indústrias e nossas cooperativas”, frisou.

Tempo real - “Segundo, é um mundo onde tudo acontece em tempo real e a expectativa do cliente não é nada menos disso e do cooperado também. Terceiro, é um mundo de dados. Onde cada interação é metrificada e isso obviamente nos dá chance de mergulhar nesse mundo de dados mas, ao mesmo tempo, para quem não souber usá-los, isso representa uma trava, você fica indeciso”, afirmou. A quarta característica desse mundo digital é a exponencialidade, de acordo com o palestrante. “É um mundo onde enfrentamos novidades a cada momento e a taxa de mudança é cada vez mais rápida. E, por último, o mundo da inteligência artificial, onde a tecnologia ameaça substituir algumas de nossas capacidades competitivas, pelo menos. Então, o que sobra para nós? Essa capacidade de questionar, por exemplo. A empatia, além da colaboração, que é uma das grandes características das cooperativas”, salientou.

Respostas - “E, quando nós combinamos a mente de principiante, que é o grande chamado que eu utilizei para começar essa palestra, a gente vai conseguir desenvolver algumas respostas, novos comportamentos, metodologias, para poder responder essas dinâmicas que estão, de fato, transformando mercados, mercados tradicionais. Diante disso, podemos fazer duas escolhas: ser espectadores dessas mudanças e ver as oportunidades passarem ou podemos reagir”, complementou.

Antifrágil - Segundo Andrea, desde a sua origem, em 1844, o cooperativismo possui uma forma de atuação diferenciada. “O cooperativismo é um modelo resistente à crise. É verdadeiramente antifrágil, ou seja, ele se reforça nos momentos mais críticos e a colaboração é a grande resposta para as crises”, pontuou. O palestrante destacou ainda a importância das cooperativas resolverem as dores dos cooperados, onde é importante mergulhar no mundo dos dados para antecipar as necessidades deles. Também disse que é preciso ficar atento às tendências de outros setores que não fazem parte do mesmo segmento para obter novas ideias e ter “atitude maker”, ou seja inovar, abrindo mão de velhas receitas de sucesso. “Não tem transformação digital sem riscos, sem sair do dia a dia”, salientou. De acordo com Andrea, executar e ter protótipos são outros itens fundamentais. Da mesma forma, não se pode ter medo de errar e é necessário ir ajustando o processo de forma assertiva, com ações diárias e fundamentadas em feedbacks. Ele disse ainda que estamos na era da adaptabilidade e que um outro pilar importante é buscar escala nos negócios, a partir das necessidades do cliente.

Cultura da inovação - O palestrante tratou de outro aspecto relevante: a cultura da inovação. “O que precisamos para fomentar uma cultura de inovação nas nossas cooperativas? Precisamos de recursos financeiros. Porém, não basta apenas ter recursos mas, também, não tirá-los do orçamento na metade do ano quando as coisas estão mais ou menos. Precisamos de tempo, precisamos de um sistema claro de incentivos e recompensas. Precisamos de inteligência coletiva. Imaginem quanto conhecimento nossos cooperados têm. Que responsabilidade nossa em armazenar e compartilhar essa inteligência. Necessitamos de colaboração, empoderamento e autonomia”, afirmou.

Oportunidade - “Eu compartilhei algumas alavancas e pilares que podem contribuir com o processo de inovação e quero de novo fazer esse chamado, de explorar esse enorme potencial que o cenário da transformação digital nos está dando. É uma oportunidade de nós nos desapegarmos dos padrões do passado e entender que os desafios apresentados nesse mundo que combina o digital com a crise da Covid-19 nos fazem mais fortes. O modelo que o cooperativismo segue desde 1844, através da colaboração, é verdadeiramente uma grande solução para a crise. E, combinando o passo a passo que alimenta esse círculo virtuoso que nunca acaba, de identificação de dores constantes através de dados, de execução e prototipação rápida graças ao digital, e de escala, baseado com foco no cliente, nós conseguimos, de fato, transformar nossas cooperativas e reposicioná-las cada vez mais como ponto nevrálgico da economia brasileira”, concluiu.

Cases - No Fórum de Inovação do Cooperativismo Paranaense houve ainda a apresentação de dois cases: Eduardo Martins falou sobre o Bosch Agro 4.0 Nevonex. “O que a Bosch propõe como o Nevonex é disponibilizar para o mercado um ecossistema para que se desenvolva e se usem soluções agrícolas de uma maneira neutra, aberta, limpa, honesta e sem nenhum tipo de dado aquisitado. A Bosh tem interesse em prover essa solução para que as empresas possam desenvolver seus conteúdos no ambiente agrícola. E vemos as cooperativas com parte importantíssima na cadeia do Nevonex, seja como propagador, como instaladoras ou até mesmo como provedoras de conteúdo, já que várias cooperativas prestam assistência para o produtor. Esse é um case de grande sucesso, lançado no ano passado”, afirmou.

Aker Solutions - Já Paulo Chiquito discorreu sobre o processo de inovação implantado na Aker Solutions, que obteve o Prêmio Nacional de Inovação na edição 2018/2019, como Destaque em segurança e saúde do trabalho entre as empresas mais inovadoras do país. “Foi um processo de transformação da Aker Solutions. Fomos contemplados em uma categoria que nós não esperávamos. O Prêmio é dividido em várias categorias: gestão da organização, gestão da inovação, inovação de produtos, processos, marketing e organizacional. Nós estávamos concorrendo em inovação organizacional com mais duas empresas. A segurança e a saúde representam um valor para a empresa e demonstra o extremo cuidado que temos com os colaboradores por conta do ambiente agressivo, complexo e insalubre a que os operadores estão expostos. Você precisa ter um cuidado muito forte para não provocar danos ao meio ambiente e preservar a saúde dos trabalhadores. Nós mostramos isso aos gestores do prêmio e acabamos ganhado em algo que nem sabíamos que éramos tão fortes assim, em comparação com outras empresas”, relatou Chiquito.

Encerramento - O evento foi encerrado pelo superintendente do Sescoop/PR, Leonardo Boesche. “A inovação é um tema de grande importância e acredito que seja um diferencial para o cooperativismo do Paraná. O nosso grande desafio é construir uma cultura de inovação para o sistema cooperativista paranaense”, afirmou. Ele informou que, no ano passado, 30 presidentes de cooperativas participaram de uma formação no MIT e que agora, em outubro, será realizado o mesmo curso de liderança e inovação em parceria com a instituição de ensino norte-americana, com 50 vagas para dirigentes de cooperativas paranaenses. Ele será ministrado de forma online e em português. “É uma oportunidade muito boa que estamos disponibilizando para nossas cooperativas. O Sescoop/PR tem se dedicado especialmente em atender as demandas do setor e fazemos questão de oferecer essas possibilidades de formação em temas atuais, como a inovação, por exemplo, com um viés na cultura cooperativista. Há vários cursos no mercado, mas o Sescoop/PR promove as formações de acordo com a linguagem cooperativa, que é o diferencial que procuramos trazer em todos os nossos programas”, concluiu.

Links - Clique nos links abaixo para conferir as apresentações do Fórum e o evento na íntegra.

Palestra Wendel Afonso

Case Bosch

Case Aker Solutions

Fórum na íntegra

 

 

https://youtu.be/8mxptogPDkQ

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