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COMÉRCIO EXTERIOR: Brasil encolhe na Argentina e China ameaça assumir topo

comercio exterior destaque 12 08 2019Os problemas vividos hoje pela economia argentina fizeram o peso das exportações brasileiras para o país despencar para níveis não vistos nem mesmo em 2002, no auge da crise da nação vizinha. Como resultado, a China cada vez mais ameaça a liderança do Brasil nas vendas para o seu principal mercado na região.

Recuo - As compras argentinas de produtos brasileiros recuaram 41,7% no primeiro semestre, para US$ 5,3 bilhões o que representa 21% das importações totais do país (eram 26% no mesmo período de 2018), menor participação desde o início da série histórica do Indec, o instituto local de estatísticas, em 2002.

Cenário - Naquele ano, os argentinos vinham de sucessivas trocas de presidente, da disparada do desemprego e da pobreza e de um calote histórico na sua dívida externa - e as importações de artigos brasileiros representavam 25,6% do total.

Cálculos - Os cálculos brasileiros mostram cenário parecido: queda de 41,6% no primeiro semestre deste ano, a segunda maior entre os 60 maiores destinos dos embarques, só atrás da registrada pela Venezuela (52,9%). A participação da Argentina nesse período caiu de 7,7% para 4,7%, ainda a terceira maior, atrás das China (27,6%) e dos Estados Unidos (13,4%), e com pequena vantagem sobre a Holanda (3,9%).

Consequência - Uma das consequências dessa queda é o Brasil nunca esteve tão perto de perder para a China a sua supremacia no mercado argentino. Ainda que suas vendas tenham caído mais que a média (30,4%, ante 27,9% do geral no primeiro semestre), os chineses detêm 17,7% das importações argentinas e só 3,3 pontos percentuais os separam da liderança brasileira, menos da metade da observada no primeiro semestre do ano passado (7,7 pontos).

Setor automotivo - A perda de espaço do Brasil neste ano, porém, é menos explicada pela concorrência chinesa e mais pela dependência dos negócios do setor automotivo, afirmou José Botafogo Gonçalves, ex-ministro de Indústria e Comércio no fim dos anos 90, no governo Fernando Henrique Cardoso, e posteriormente embaixador na Argentina. Mais de um terço da venda brasileira (US$ 1,9 bilhão) de janeiro a junho envolveu esse segmento, US$ 2,5 bilhões menos que em igual período de 2018 - e a participação do país pouco mudou nesse período, caiu de 64% para 62%.

Pouco eficiente - De acordo com o diplomata, Brasil e Argentina preferiram manter uma indústria pouco eficiente na comparação internacional. "É um setor que é artificialmente mantido pelos subsídios dos dois países", disse Gonçalves, em referência ao acordo que prevê vantagens para veículos e autopeças dos parceiros.

Indústria de transformação - O declínio da demanda argentina especialmente em veículos explica também por que a indústria de transformação de alta-média tecnologia perdeu espaço na pauta exportadora brasileira, com queda no geral de US$ 2,90 bilhões do primeiro semestre de um ano para outro, sendo que o país vizinho respondeu por retração de US$ 2,89 bilhões. O peso dessa categoria caiu no período de 17,4% do total para 15,4%.

Convergência - A solução para melhorar esses números, segundo Gonçalves, passa pela busca da convergência das políticas comerciais, em que os dois países "deixem de olhar para seus próprios umbigos", e especialmente pela abertura econômica, como o acordo anunciado entre o Mercosul e a União Europeia, em junho, visando a melhora da produtividade.

Resto do mundo - "É preciso vender com mais eficiência não um para o outro, mas para o resto do mundo. Trata-se de uma mudança de mentalidade. Os quatro [Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai] têm que conquistar o resto do mundo", afirma o vice-presidente emérito do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).

Olhar para fora - Para José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), o país precisa olhar para fora, sem descartar a Argentina. Mas, para isso, ele destaca que é fundamental que as reformas tributária e da Previdência sejam bem-sucedidas e que os investimentos em infraestrutura ganhem força.

Custo Brasil - "Tudo gira em torno do custo Brasil. Não temos competitividade hoje para vender para fora da América Latina", disse Castro, ressaltando que, com o sucesso das reformas, o Brasil será um novo país, mas que os resultados no comércio exterior só serão sentidos em ao menos dois anos. Ele alerta que o aumento da competitividade é fundamental para o país reduzir a dependência das vendas para a China. "Precisamos parar de rezar em mandarim, porque a economia chinesa está desacelerando." (Valor Econômico)

comercio exterior quadro 12 08 2019

 

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