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BRASIL: Desafio na década será ampliar crescimento

 

brasil 18 12 2019Marcada por uma das maiores recessões da história, a década que chega ao fim deverá deixar um legado negativo para a que ainda vai começar. Os economistas acreditam que, de forma sustentada, o Brasil possa crescer algo como apenas 1,5% por ano, embora no curto prazo haja espaço para superar esse percentual, devido à alta capacidade ociosa do capital e do trabalho. Mesmo com o ajuste fiscal e as reformas liberais em curso, o consenso da pesquisa Focus de expectativas do mercado financeiro é que, dentro de quatro anos, a economia atinja uma velocidade máxima de cruzeiro de 2,5%.

 

Esperança - A esperança é que os economistas estejam mais uma vez enganados, como estiveram há uma década. Eles acreditavam, então, que o Brasil havia entrado numa fase duradoura de prosperidade, com taxas de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) de 4,5%. Até os economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI), geralmente mais contidos nas suas projeções, previam um crescimento médio de 4,3%.

 

Média - A média de crescimento de 2010 a 2019 será de 1,38%, considerando uma estimativa de expansão de 1,1% do PIB neste ano. Com base no começo oficial da próxima década, que se inicia em 2021, a média de avanço do PIB em dez anos ainda mais desfavorável. No período de 2011 a 2020, ela é de 0,86%, levando em conta uma expansão do PIB de 2,25% para o ano que vem - nesse período, fica de fora o avanço da economia de 7,5% registrado em 2010.

 

Risco - “O risco para a próxima década é o PIB potencial surpreender para cima, não para baixo”, afirma o economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato Barbosa. “É difícil medir o efeito na produtividade de todas essas reformas que estão sendo feitas, por isso elas não estão nas contas da maior parte das pessoas.”

 

Estímulos monetários- O Banco Central entrará, em 2020, no quarto ano de estímulos monetários, com a possibilidade de um corte adicional da taxa de juros em fevereiro, para 4,25% ao ano. Mas os limites da política expansionista já entraram no radar. Pela primeira vez, alguns membros do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC manifestaram, em ata divulgada ontem, preocupação com o risco de a economia se acelerar demais, preenchendo mais rápido do que o esperado a capacidade ociosa da economia.

 

Engano - O BC, porém, pode estar enganado nos seus temores. Na última década, o Copom errou de forma consistente as suas estimativas de inflação. Num primeiro período, até 2016, projetou inflação menor do que a efetivamente medida. Desde então, passou a errar para o outro lado, superestimando a inflação. O conjunto de analistas do setor privado cometeu os mesmos erros.

 

Médio prazo- “Toda essa discussão sobre como aumentar o PIB potencial será importante apenas no médio prazo”, diz o economista Marcelo Kfoury Muinhos, professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EESP). “Existe capacidade ociosa para crescer acima do PIB potencial por uns dois anos.”

 

Limites externos- Especialistas começam a discutir também os limites externos à expansão da economia, depois que um aperfeiçoamento feito pelo BC na metodologia de cálculo do balanço de pagamentos revelou que o déficit em conta corrente era mais alto que se imaginava, em 3% do PIB.

 

Fatores passageiros- O ex-diretor de assuntos internacionais do Banco Central Tony Volpon diz que as estimativas do PIB potencial (velocidade máxima que a economia pode crescer no longo prazo sem acelerar a inflação) feitas há uma década eram vitaminadas por fatores passageiros. O Brasil vivia o chamado bônus demográfico, que foi a entrada de um grande contingente de trabalhadores no mercado. O ambiente internacional também era muito benéfico aos exportadores de commodities, com a alta de preços provocada pela expansão quantitativa feita pelos países desenvolvidos e a demanda da China.

 

Outro mundo- “O mundo era outro”, afirma economista-chefe do Banco Santander, Ana Paula Vescovi. Ela cita alguns números: a China crescia 10,6% em 2010, e o comércio internacional, 7%. O barril do petróleo chegou a US$ 91,80, a tonelada do minério de ferro estava em US$ 173 e o índice de commodities cresceu 25%. Toda essa sensação de riqueza nos termos de troca se trazia numa cotação do dólar de R$ 1,67.

 

Tripé macroeconômico- O PIB potencial também foi fortalecido com a manutenção, pelo governo Lula, do chamado tripé macroeconômico, com o respeito ao regime de metas de inflação, câmbio flutuante e superávits primários. “O sentimento no primeiro governo Lula era de que estávamos virando a página na questão macro”, diz a economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif. “O primeiro governo Lula reduziu muito o medo de uma política econômica heterodoxa, e o risco-país caiu”, diz Honorato, do Bradesco.

 

Mudança - As expectativas otimistas para o PIB potencial se frustraram com a virada dos ventos internacionais e relaxamento do tripé macroeconômico. “A mudança na política macro começou no final do governo Lula”, diz Zeina. Um sintoma disso foi o superaquecimento da economia, que facilitou a eleição da presidente Dilma. No exterior, os termos de troca ficaram menos favoráveis. “O ambiente externo virou a partir de 2010, e o governo entendeu errado essa virada, como se fosse uma crise semelhante à de 2008”, afirma Volpon, que é economista-chefe do UBS Brasil. “Houve uma má reação de política econômica, com um conjunto de medidas que ficou conhecido como a nova matriz macroeconômica.”

 

Distante - Passada uma década, o ambiente internacional segue distante do quadro de 2010. O crescimento da China é estimado pelo FMI em 6,1% para 2019, o barril de petróleo está cotado em torno de USS 65, a tonelada do minério de ferro está em US$ 94 e o índice de commodities sobe pouco mais de 10% em 12 meses. Mais importante, o comércio mundial deverá registar uma expansão de apenas 1,2% neste ano, em virtude da guerra comercial.

 

Expansão menor- O ambiente internacional menos favorável - junto com o fim do bônus demográfico - faz com que, na partida, a economia brasileira tenha uma perspectiva de expansão menor. “Para crescer mais, teria que ter alguma coisa positiva no ambiente mundial, algo que melhorasse os termos de troca do país”, afirma Volpon.

 

Fatores domésticos- Sem uma sorte grande na economia mundial, uma taxa sustentada de crescimento mais robusta dependerá de fatores domésticos. Zeina chama a atenção para o legado negativo que foi deixado pela recessão e pelas más políticas econômicas adotadas a partir do fim do segundo governo Lula, que estão sendo corrigidas gradualmente desde o governo Temer. “A economia tem uma alta capacidade ociosa, mas o longo período de crise deteriorou o estoque de capital, inclusive o capital humano”, afirma.

 

Capacidade de crescimento- A capacidade de crescimento é determinada por basicamente três fatores: o número de trabalhadores na economia; o estoque de capital investido na economia; e a produtividade desses fatores, ou seja, quando é possível produzir para cada unidade de trabalho e de capital. A oferta de trabalho depende de fatores demográficos; o estoque de capitais é determinado pelos investimentos; e a produtividade, também pelos investimentos e pelas reformas econômicas.

 

Cálculo rápido- Muitos dos economistas ouvidos pelo Valor fizeram um cálculo rápido de cabeça: no período de 20 anos até 2017, a economia cresceu em média pouco menos de 2%, com uma taxa de investimento média de 18% do PIB no período. Hoje, a taxa de investimento está pouco acima de 16% do PIB, e a população cresce menos. Dessa forma, a capacidade de crescimento sustentado seria inferior a 2%. Os percentuais mais citados, calculados pelos modelos econométricos, são algo como 1% ou 1,5%. A projeção de expansão de 2,5% no médio prazo revela, portanto, alguma esperança de que as reformas fiscais e microeconômicas vão fazer algum efeito para estimular investimentos e a produtividade.

 

Poupança - Ana Paula Vescovi, que foi secretária do Tesouro Nacional e ex-secretária-executiva do Ministério da Fazenda, lembra que a contrapartida dos investimentos é a poupança. Ela faz um outro cálculo rápido: a poupança do setor privado é de 19% do PIB, mas o déficit do governo consome algo como 5% ou 6% do PIB dessa poupança. Sobra, portanto, apenas uma poupança de 13% do PIB para bancar os investimentos na economia, de pouco mais de 16% do PIB.

 

Diferença- “Essa diferença entre o investimento e a poupança doméstica é financiada pela poupança externa”, afirma ela. A contrapartida dessa poupança externa é o déficit em conta corrente, que chegou a 3% do PIB, depois que o BC fez uma revisão na metodologia estatística do balanço de pagamentos. “Os economistas começaram a olhar esse fato, mas por ora esse não é um gargalo fundamental. Se fizermos nossa parte, vamos atrair investimentos diretos e em carteira para o financiamento externo.”

 

Despoupança - A questão fundamental, sustenta, é aumentar a poupança doméstica. “É preciso reduzir a despoupança do setor público”, diz. Ou seja, reduzir o déficit dos governos, que dessa forma deixariam de absorver uma parte relevante da poupança doméstica. A despoupança do setor público, argumenta, também ajuda a explicar os limites mais estreitos para o crescimento da economia, quando comparado com a situação de uma década atrás. Em 2010, o Brasil tinha superávit primário de 3,05% do PIB e um déficit nominal de 2,5% do PIB.

 

Ajuste - “Aos poucos, estamos fazendo o ajuste e convergindo para um padrão melhor, mas ainda temos déficit primário”, afirma Ana Paula. O resultado está negativo em 1,5% do PIB, e o governo só prevê superávit em 2023. “Aqui e ali, estão dizendo que a dívida se estabiliza com déficit primário, mas não tem mágica que sustente isso. Se todo mundo perceber que o Brasil vai ficar com um déficit primário permanente, o prêmio de risco aumenta, e a dívida pública volta a subir.”

 

Caminho - Honorato concorda que a redução da despoupança do setor público é um caminho para aumentar os investimentos. Ele chama a atenção, por outro lado, para o fato que a taxa de poupança reage à retomada da economia. As empresas respondem por uma parcela significativa da poupança privada, e a economia aquecida aumenta lucros e a poupança das empresas.

 

Menos ativos- Para ele, o Brasil também pode absorver um pouco mais de poupança externa. A revisão nas estatísticas do balanço de pagamentos revelou, argumenta, que o país está acumulando menos ativos no exterior (recursos que eram contabilizados como lucros reinvestidos no exterior, na verdade, foram gastos em outras transações da conta corrente). Isso é diferente de o país precisar atrair mais capitais estrangeiros para cobrir um déficit em conta corrente mais alto. Além disso, afirma, o país pode manter déficits se tiver com uma economia organizada, que usa bem os recursos para melhorar a capacidade de crescimento.

 

Aposta - A aposta atual do mercado é que os limites do PIB potencial não pesem nas decisões do Banco Central até o começo de 2021, para quando os analistas esperam o início do ciclo de alta de juros. Mas, até lá, o Copom deverá navegar um período de observação, quando de fato vai verificar o quanto de capital físico e humano restou da recessão. “O Banco Central terá que olhar com carinho a economia no ano que vem para ver se será preciso subir os juros mais cedo do que o esperado”, diz Zeina. “Sim, temos ociosidade na economia, mas de baixa qualidade. Temos máquinas, mas velhas.”

 

Retorno dos investimentos- Volpon diz que, à medida que a economia cresce e começa a preencher a capacidade ociosa, as empresas vão voltar a investir. “Isso provoca uma pressão de custo”, diz ele. “Por isso que o BC não precisa, agora, colocar mais estímulos na economia.”

 

Sinal - Kfoury diz que o fato de a taxa de desemprego ter ficado estacionada em 12% a despeito de a economia ter crescido perto de 1% nos últimos anos é um sinal de que o PIB potencial está ao redor desse valor. Portanto, haveria espaço para crescer um pouco mais do que isso – algo como 2,5% - por uns dois anos. Mas ele pondera que será preciso observar o comportamento da atividade e inflação ao longo do tempo. “Às vezes, a capacidade ociosa está num setor, mas a demanda vem em outro, como infraestrutura”, afirma o economista. “Aí, aparece o gargalo.” (Valor Econômico)

 

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