BRASIL: Modelo de crescimento do país precisa unir consumo e investimento, diz estudo

Nos próximos dez anos, é improvável que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresça em ritmo de "leão africano", com altas anuais de 7% ou 8%, nem tampouco ficará próximo à estagnação de um país europeu. O país ficará em algum ponto no meio desse caminho e, para tanto, não vai precisar mudar o seu modelo de crescimento do consumo para o investimento, como advogam alguns especialistas, mas deve contar com os dois. Essa é a conclusão do estudo "O Ambiente Empresarial no Brasil", da consultoria McKinsey, sobre as transformações do país nos últimos 25 anos, repassado com exclusividade ao Valor.

Soma - "Não vai ser preciso trocar a chave, mas adicionar uma, que é a infraestrutura com investimentos que podem chegar a R$ 5 trilhões em 20 anos", diz Nicola Calicchio, presidente da McKinsey para a América Latina. Para unir as duas pontas, diz ele, a produtividade é variável fundamental. "Os economistas vão falar que não dá para fazer as duas coisas, mas dá, se melhorar a produtividade. É isso que os países que cresceram rápido fizeram". O caminho para chegar lá passa por reformas, lembra o executivo. "O Brasil tem potencial para crescer 7% ao ano, mas com essa taxa de investimento, esse nível de informalidade no mercado de trabalho e de qualidade da mão de obra, não passa de 3%".

Mapeamento - O estudo, que mapeia o ambiente econômico e empresarial desde 1988, ano da chegada da consultoria ao Brasil, ressalta avanços macroeconômicos importantes, deixando a percepção de que, embora haja muito por fazer, muito já foi feito. "O fato é que temos uma dívida pública baixa, inflação razoavelmente sob controle e grande volume de reservas", diz Calicchio.

Maior retorno - No âmbito empresarial, a análise de 50 companhias de capital privado, nacional e não financeiras negociadas em bolsa mostrou que, em 25 anos, as empresas que deram maior retorno ao acionista conseguiram crescer acima do PIB do período (metade do grupo) e se expandir em diferentes ciclos econômicos. As empresas que cresceram sem descuidar da rentabilidade também foram as que geraram retornos superiores para o acionista, ao lado das que conseguiram desenvolver organizações fortes e não temeram movimentos como aquisições ou alianças.

Macrotendências globais - Além das cinco lições, o empreendedor que está definindo suas estratégias para a próxima década deve ter em mente "macrotendências globais" que devem afetar o Brasil e criar oportunidades. Segundo William Jones, especialista-sênior em estratégias e finanças corporativas da McKinsey, o crescimento das economias emergentes continuará impulsionando no Brasil setores como bens de consumo, varejo, serviços financeiros, saúde a habitação. "Calculamos aumento de R$ 700 bilhões no mercado de bens de consumo nos próximos dez anos", diz Jones. Segundo ele, é fundamental olhar esse avanço da forma que qualificou como "granular" - garimpando setor a setor. "Algumas categorias, como a de refeição pronta, vão ser três vezes maiores em dez anos."

Tecnologia - Outra macrotendência importante é a possibilidade de aumento do uso de tecnologia em setores muito pouco produtivos, como saúde, educação e administração pública, além do alto potencial do comércio eletrônico no Brasil, que embora tenha crescido 36% ao ano desde 2004 ainda está na metade do nível de penetração americano. Na área de recursos naturais, Jones lembra que o Brasil tem 30% da área potencialmente agriculturável do mundo, o que favorece o setor agrícola e indústrias de apoio. "Ajudar o governo a cumprir o seu papel em saúde e educação seria a quinta área de oportunidade."

Riscos e volatilidade - Os empreendedores que se preparam para o ambiente de negócios na próxima década certamente pesam riscos e a volatilidade. "Se há algo que o Brasil empresarial demonstrou em 25 anos foi sua resiliência e capacidade de reação", diz o estudo. Para a McKinsey, os fatores por trás dessa resiliência persistem e incluem a escala do mercado doméstico, a flexibilidade político-institucional, a relativa solidez do sistema financeiro e das finanças do governo e fundamentos macroeconômicos mais robustos do que em qualquer outro momento após o período do chamado "milagre", na década de 1970. (Valor Econômico)

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