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OPINIÃO: Muito ou pouco?

Por Roberto Rodrigues (*)

O melhor resultado da Rio+20 foi o fato de o tema sustentabilidade se tornar objeto de conversas e debates no mundo todo. Mesmo quem não entendia nada sobre isso foi obrigado a conhecer um mínimo, dada a ampla exposição, pela mídia, dos assuntos relacionados.

Por isso, de agora em diante qualquer pessoa ter√° a sustentabilidade no seu radar.

E o pior resultado foi a não discussão, em termos adequados - isto é, em profundidade - da complexa questão da mudança do modelo de consumo.

Os ricos n√£o querem diminuir seus padr√Ķes de vida e de consumo, e os pobres querem ficar iguais aos ricos. Isso ser√° claramente insustent√°vel e constituir√° o grande desafio da humanidade: mudar os h√°bitos. E quanto custar√° isso? Ou melhor, o que custa isso?

Custa votos, milh√Ķes de votos pelo mundo todo e nenhum governo est√° disposto a perder votos.

Sobretudo no quadro da crise em que estamos metidos, na qual as dificuldades dos governos em gerar empregos - ou em pelo menos manter os atuais -, em conseguir investimentos produtivos, em ampliar o com√©rcio internacional, em controlar a infla√ß√£o (cuidando da moeda e do c√Ęmbio) e ainda seguir crescendo s√£o as grandes batalhas no interior de cada pa√≠s.

At√© porque, n√£o logrando isso, os governos perder√£o as pr√≥ximas elei√ß√Ķes para as oposi√ß√Ķes, como na Fran√ßa.

Por outro lado, a ambição inicial de uma monumental reunião como essa que a ONU organizou no Rio na semana passada é muito grande. Criou-se uma expectativa impossível de ser atingida.

Imaginemos essa ambi√ß√£o representada graficamente por um grande c√≠rculo, digamos, de dois metros de di√Ęmetro. A√≠ vem um pa√≠s e corta um peda√ßo do c√≠rculo; outro corta outro peda√ßo, um bloco de pa√≠ses articulados tira um naco maior, e assim, aos poucos, o c√≠rculo vai diminuindo, diminuindo.

Como o resultado final s√≥ pode ser obtido por consenso, ele acaba representado por um m√≠nimo m√ļltiplo comum pequenino, um anelzinho de dois ou tr√™s cent√≠metros de di√Ęmetro.

√Č claro que todo mundo que esperava um final negociado de pelo menos um metro de di√Ęmetro (na nossa imagem gr√°fica) vai achar o resultado p√≠fio, insuficiente.

√Č mesmo muito dif√≠cil o atual modelo das negocia√ß√Ķes multilaterais, e ele est√° sendo questionado. Afinal, de repente um grupo de pa√≠ses pequenos inibe uma decis√£o tomada pela grande maioria.

Mas por tr√°s disso tudo est√° um item que tenho discutido neste espa√ßo: o que falta mesmo s√£o l√≠deres de envergadura global. Falta quem tenha uma vis√£o estrat√©gica planet√°ria para conduzir as negocia√ß√Ķes e apontar uma dire√ß√£o.

A morna discuss√£o que deu origem ao documento final "O Futuro que Queremos" mostra isso: faltou comando! Felizmente, o Brasil se destacou nas discuss√Ķes e deu o tom melhor poss√≠vel ao acordo que, na verdade, joga as decis√Ķes para a frente. Para outros negociadores, inclusive.

E a agricultura? A versão final do documento em inglês tem 24.163 palavras. E a palavra "agricultura" aparece somente seis vezes (uma delas na digitação por extenso do nome da FAO). Só seis vezes! E todas elas acompanhadas do adjetivo "sustentável".

√Č muito pouco para um dos setores mais importantes do mundo para tratar do combate √† pobreza, para resolver a seguran√ßa alimentar, para preservar recursos naturais, para se preocupar com a √°gua etc.

Muito pouco. A palavra "rural" aparece mais vezes, 20 no total, mas sempre se referindo a algo ligado ao campo: mulher rural, comunidade rural, √°rea rural, infraestrutura rural, desenvolvimento rural, pobreza rural. Tudo em tese, nada concreto.

E uma novidade: a palavra cooperativa aparece três vezes, embora apenas uma vez como cooperativa agrícola. Esse é o documento da ONU, a mesma instituição que nomeou 2012 como o "Ano Internacional do Cooperativismo"? Muito ou pouco?

Bem, isso é página virada. Agora, vamos trabalhar para valer na construção de um moderno Código Agroambiental. Aí teremos nossa própria estratégia de desenvolvimento sustentável, a Brasil 21.

(*) Roberto Rodrigues é coordenador do Centro de Agronegócio da FGV e professor do Departamento de Economia Rural da Unesp-Jaboticabal. Foi ministro da Agricultura (governo Lula). Escreve aos sábados, a cada duas semanas, na versão impressa de "Mercado" do Jornal Folha de SP.

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